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O Paradoxo da Crítica: Quando Cumprir a Lei se Torna um Crime

 



O Rio de Janeiro acumula 23.381 mandados de prisão em aberto, segundo dados de agosto de 2025 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) [1]. Este número alarmante, que coloca o estado na segunda posição nacional, representa milhares de decisões do Poder Judiciário aguardando cumprimento, milhares de vítimas esperando por justiça e milhares de criminosos em circulação. Em âmbito nacional, o cenário é ainda mais grave, com 306.090 mandados pendentes [1].

Diante desse quadro, uma operação policial foi deflagrada nos Complexos do Alemão e da Penha com um objetivo específico: cumprir 100 desses mandados de prisão contra membros do Comando Vermelho. O resultado foi a prisão de 81 pessoas e a apreensão de 42 fuzis, representando uma taxa de sucesso de 81% no cumprimento de seu objetivo declarado. Contudo, o que se seguiu não foi um debate sobre a eficácia da ação, mas uma enxurrada de críticas centradas em um argumento curioso: a operação não resolve o problema do crime organizado.

Aqui reside o paradoxo central que expõe as contradições do nosso debate público. Se a polícia não age para cumprir os mais de 23 mil mandados, é acusada de omissão e a justiça é vista como inoperante. Se age, é criticada por não solucionar um problema estrutural que, por sua própria natureza, nenhuma operação isolada poderia resolver. Avaliar uma ação de cumprimento de mandados pelo critério de "acabar com o crime organizado" é como criticar um cardiologista por não curar o câncer de um paciente. O objetivo nunca foi esse.

A Falsa Equivalência da Faria Lima

Uma das críticas mais recorrentes nas redes sociais e na mídia tem sido a comparação com a operação contra o PCC realizada meses antes, que incluiu incursões em escritórios da Faria Lima e outros endereços nobres. O argumento é simples e sedutor: "Na Faria Lima não teve um tiro, nas favelas teve massacre. Isso prova que a polícia trata pobres e ricos de forma diferente".

Essa comparação, por mais popular que seja, ignora uma diferença fundamental e óbvia: na Faria Lima não há fuzis. Quando a polícia chega para cumprir um mandado em um escritório de advocacia ou em uma corretora de investimentos, os alvos não reagem com armamento de guerra. Não há barricadas, não há granadas, não há drones lançando explosivos. Os empresários de terno não abrem fogo contra os agentes. É simples assim.

Nas favelas dominadas por facções, a realidade é radicalmente diferente. São territórios onde o Estado perdeu o controle, onde organizações criminosas impõem sua lei à força de fuzis e metralhadoras. Quando a polícia entra para cumprir mandados, é recebida a tiros. A letalidade não é uma escolha da polícia, é uma consequência da resistência armada. Se não houvesse confronto, não haveria mortes. É óbvio.

Comparar uma operação de investigação financeira, onde os alvos são presos sem resistência, com uma operação em território de guerra, onde facções reagem com armamento pesado, não é apenas desonesto, é uma tentativa deliberada de criar uma falsa equivalência que serve apenas para deslegitimar a ação do Estado.
O que não se pode permitir é que os representantes da ordem estatal se tornem criminosos no processo de cumprir a lei. A alta letalidade de 121 mortos exige investigação rigorosa. As denúncias de execuções e violações de direitos humanos, como as relatadas por lideranças comunitárias e pelo deputado Otoni de Paula sobre a morte de jovens sem envolvimento com o crime [2], não podem ser ignoradas.

Mas reconhecer isso não significa aceitar a narrativa de que toda ação policial em favela é automaticamente uma chacina, enquanto operações em áreas nobres são exemplos de eficiência. A diferença não está no CEP, está na resistência armada.

O Debate Político e a Desconexão com a Realidade

Parlamentares de esquerda classificaram a ação como "chacina" e um "modelo falido", afirmando que o governo "transforma medo e morte em palanque eleitoral" [2]. A crítica central é que operações como esta são um "banho de sangue" que não resolve a questão estrutural do crime.

Por outro lado, parlamentares de direita defenderam a operação como necessária para combater "organizações narcoterroristas" que dominam territórios. O deputado General Pazuello afirmou: "Ou nós vamos combater essas facções ou vamos virar um narcoestado dominado por terroristas" [3].

O que se percebe é uma desconexão entre o discurso e a realidade do enfrentamento. Muitos dos que criticam a operação nunca estiveram em uma favela dominada pelo tráfico, nunca olharam nos olhos de uma vítima esperando por justiça há anos, nunca sentiram o peso de decidir entre agir e ver a lei ser ignorada. O discurso é confortável quando feito de redações climatizadas, mas a segurança pública não se resolve com teorias ou publicações em redes sociais. Ela exige ação concreta, por mais imperfeita que seja.

Há uma tendência perigosa de romantizar o criminoso enquanto se demoniza o policial. Quando 23 mil mandados ficam em aberto, não se trata apenas de números. São pessoas condenadas pela Justiça que continuam livres, muitas delas liderando organizações que aterrorizam comunidades inteiras. Ignorar isso é negligenciar o sofrimento de quem vive sob o domínio dessas facções.

A Crítica Desonesta

A crítica de que a operação não "acaba com o crime organizado" é, no mínimo, desonesta. Nenhuma operação policial no mundo tem essa capacidade. O objetivo era específico e foi cumprido: retirar de circulação indivíduos com mandados de prisão. Deslegitimar essa ação por ela não ser uma solução definitiva é abrir mão do império da lei. É dizer que, como não podemos resolver tudo de uma vez, não devemos fazer nada.

O que se observa é uma perigosa confusão entre a avaliação da tática (a operação em si, com sua letalidade a ser investigada) e a legitimidade da estratégia (cumprir ordens judiciais). A crítica, por vezes, parece mais interessada em atacar o governo de plantão ou em defender uma agenda ideológica do que em discutir soluções factíveis.

Quando o deputado Kim Kataguiri afirma que "não há nada mais soberano do que controlar o território nacional e fazer valer o ordenamento jurídico" [3], ele toca em um ponto essencial: a alternativa à ação do Estado é a consolidação de territórios onde a lei brasileira não vale.

O Verdadeiro Paradoxo

Parece que, para uma parcela da classe política, a ação policial já nasce condenada, independentemente de seu objetivo ou resultado. Quando a polícia não prende e a justiça não manda prender, dizem que a justiça não funciona e a polícia não serve para nada. Quando a justiça manda prender e a polícia faz operação para cumprir mandados, dizem que a operação não serve para combater o crime.

O que aparenta é que essa parcela quer criticar por criticar ou, pior ainda, proteger os integrantes das facções criminosas. Não há proposta alternativa viável. Não há plano concreto para cumprir os 23 mil mandados pendentes. Há apenas crítica vazia e comparações desonestas.

A sociedade precisa decidir o que quer. Se queremos o império da lei, precisamos aceitar que mandados de prisão devem ser cumpridos. Se queremos reduzir a letalidade, precisamos investir em inteligência, tecnologia e treinamento, não em deslegitimar a ação policial. O que não podemos é exigir justiça e, ao mesmo tempo, condenar quem tenta fazê-la valer.

É fundamental separar as questões. A alta letalidade é inaceitável e deve ser combatida com inteligência, tecnologia, treinamento e controle rigoroso. Mas a necessidade de cumprir mandados de prisão é inquestionável. Não podemos cair na armadilha de invalidar a ação do Estado em sua função mais básica, fazer cumprir a lei, sob o pretexto de que ela não é a solução mágica para todos os males.

O desafio é exigir uma polícia que seja, ao mesmo tempo, eficaz no cumprimento de seu dever e intransigente no respeito aos direitos humanos. Uma coisa não anula a outra. Criticar por criticar, sem apresentar alternativas viáveis que não passem pela rendição ao crime, é um desserviço à sociedade e, principalmente, aos moradores das comunidades que vivem sob o jugo de facções criminosas.

Referências

[1] QSL News. "300 mil mandados de prisão em aberto". Acessado em 30 de outubro de 2025. https://qslnews.com.br/300-mil-mandados-de-prisao-em-aberto/

[2] Agência Brasil. "Operação policial no Rio tem críticas e defesas de deputados federais". Acessado em 30 de outubro de 2025. https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2025-10/operacao-policial-no-rio-tem-criticas-e-defesas-de-deputados-federais

[3] Portal da Câmara dos Deputados. "Deputados da oposição dizem que operação policial no Rio foi necessária". Acessado em 30 de outubro de 2025. https://www.camara.leg.br/noticias/1217422-deputados-da-oposicao-dizem-que-operacao-policial-no-rio-foi-necessaria

 

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